Tudo pela Metade, Tudo pela Inteireza

Até que mostrem alguém que escreveu isso primeiro, como a professora fez com minha monografia da graduação, na qual dizia ela que eu citava Kant sem trazer a referência, criei uma teologia própria e revolucionária. Acho que tudo o que faz o ser humano é cindir-se. Temperamentos cindidos, desejos, amores, anseios, pensamento e fé. Tudo são metades, terços ou quartos. Está tudo dividido e isso é efeito da Queda.

Eu, por exemplo, por mais que me esforce e os inveje, jamais atingirei a valentia de um colérico ou a jovialidade de um sangüíneo. Salvo classificação melhor, está todo mundo dividido entre quatro temperamentos, não se encontrando um só que tenha todas as boas características de todas as personalidades, e nem as más. Parece que nossos pais nos recebem como compram um carro: um é potente, mas consome muito; outro é à álcool, mas não dá ignição no frio; o terceiro tem injeção eletrônica, mas suas peças custam um absurdo; e o quarto dá pouca e barata manutenção, mas tem o preço do seguro nas alturas. A diferença é que nossos pais não nos vêm à escolha na loja: pior para eles.

Ninguém consegue juntar as boas ou más qualidades, elas foram todas aleatoriamente espalhadas, assim como as línguas em Babel. Toda mãe dá à luz um filho com um pacote irreversível de boas e más peculiaridades.

Outro dia um blogueiro muito bom escreveu sobre a angústia e o tédio. Ele tinha razão, vivemos sempre fugindo da instabilidade, mas quando tocamos a estabilidade tão desejada, nos entediamos. Estamos sempre procurando a parte de nós que não temos, ou que tínhamos e não temos mais. Somos e estamos cindidos.

Do mesmo modo, só há um jeito de ver as coisas. Tombados os modelos de estado liberal e socialista, nós continuamos a nos dividir assim, e a outra ideologia é sempre inimiga, nunca contrapeso. Ninguém pode encontrar-se parcialmente correto, pois os liberais, para os socialistas, são sempre reacionários contrários à igualdade, e os socialistas, para os liberais, são sempre baderneiros em desfavor da liberdade.

Parece mesmo que Jesus, o Consertador-Geral do Universo, foi o único homem inteiro, e por isso viveu confiantemente a instabilidade e confortavelmente a estabilidade. Ao curso de sua imensa saga bíblica, Deus demonstra qualidades masculinas e femininas ao mesmo tempo. Eu, que sou macho, sigo insensível e com atenção dispersa, bem como educarei meus filhos para desenvolvê-los, tão-somente, e não para protegê-los junto a mim. Darei a ele a minha disciplina, o cafuné que fique com a mãe. O Pai do filho pródigo — notadamente a melhor pintura que Jesus fez de Deus, era diferente, mais parecia mãe, como inesquecivelmente escreveu Nouwen. O pai-padrão não faz aquilo, não recebe escandalosamente bem o ingrato filho que lhe desonrou, ele não esquece os erros do filho, mas disciplina-o. Ora, sabemos nós que quem enche os presídios para visitar reclusos são as suas mães.

Pronto! Doravante, passo a resumir e contemplar as pessoas assim: cindidas. E como tornou-se-nos viciante o hábito de viver tudo pela metade, proponho, façamos tudo pela inteireza!

1 Resposta para “Tudo pela Metade, Tudo pela Inteireza”


  1. 1 Alysson Amorim 12 Novembro, 2007 às 7:44 pm

    Meu caro,

    Sua teologia é um diagnóstico acertado. A inteireza é um ideal distante, algo como o meio termo aristotélico.

    Dizem por aí que o equilíbrio do princípio masculino e feminino é o ideal para a personalidade: a acentuação de um ou outro gera casos patológicos. Acho que todos nós, homens e mulheres, com raríssimas exceções (como foi o caso do nosso “Consertador-Geral do Universo”) somos seres cindidos, incompletos. Em suma, patológicos.

    Acho que sua teoria, embora original, não é tão original assim – como nenhuma teoria o é. O ser cindido, fico pensando, deve ter algo com o ser enquanto “equação não resolvida”, coisa dos existencialistas.

    Ah! Agradeço muitíssimo a inserção da parte fraca do texto, a citação.

    Abraços.


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